Turismo e desenvolvimento econômico local: por que separar os dois é um erro de gestão
Turismo ainda é tratado como tema de promoção e evento em boa parte dos municípios brasileiros. Este artigo explica por que isso é um erro de gestão — e o que muda quando o setor é tratado como eixo econômico mensurável e parte da estratégia de desenvolvimento local.
Vinicius Rodrigues · 12 de maio de 2026 · 7 min de leitura

Existe uma separação implícita na forma como muitos municípios organizam sua gestão pública: de um lado, o desenvolvimento econômico — indústria, comércio, geração de emprego, atração de investimentos. Do outro, o turismo — eventos, festas, promoção, cartão-postal.
Essa separação tem um custo. E ele é mais alto do que parece.
O que os dados dizem sobre o peso do turismo
Antes de qualquer argumento de gestão, vale olhar para os números.
O setor de turismo contribuiu com cerca de 7,7% do PIB nacional em 2023, segundo levantamento do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) com a Oxford Economics, e a projeção para 2024 era atingir US$ 169,3 bilhões em contribuição econômica, com mais de 8 milhões de empregos gerados no país — 8,1% do total de postos de trabalho.
No Estado de São Paulo, o setor representa cerca de 10% do PIB estadual. E mobiliza mais de 50 setores da economia simultaneamente — de hospedagem e alimentação a transporte, artesanato, cultura, tecnologia e construção civil.
Esses não são números de um setor secundário. São números de um eixo econômico estrutural — com capacidade de gerar emprego em diferentes níveis de escolaridade, distribuir renda no território e atrair gasto externo para dentro do município.
Quando o turismo é tratado como promoção, esses números ficam invisíveis. E o que fica invisível não entra no planejamento.
Por que o turismo ainda é tratado como evento
A raiz do problema é histórica. Por décadas, a política de turismo no Brasil foi construída em torno da promoção de destinos — campanha publicitária, material gráfico, participação em feiras. A secretaria de turismo era, na prática, um departamento de comunicação com viés festivo.
Esse modelo não é irrelevante — promoção importa. O problema é quando ela é o único instrumento. Quando a secretaria tem orçamento para contratar banda, mas não tem dados sobre quantos visitantes vieram ao município no ano. Quando o prefeito sabe o nome do próximo evento, mas não sabe quantos empregos o setor gera formalmente.
Turismo tratado como evento é turismo sem série histórica, sem comparabilidade, sem evidência de retorno sobre investimento público. É, na prática, turismo sem política pública.
O que muda quando o turismo entra na agenda econômica
A mudança não é de vocabulário. É de posição na hierarquia de decisão e de instrumento de gestão.
Quando o turismo é reconhecido como eixo de desenvolvimento econômico, ele passa a competir por orçamento com a mesma linguagem que os outros setores usam: dados de emprego, arrecadação, fluxo, investimento, retorno. Isso muda o peso do secretário de turismo em reuniões de planejamento — e muda a qualidade das decisões que saem dessas reuniões.
Na prática, significa monitorar ISS nas atividades características do turismo, acompanhar o estoque e o saldo de empregos formais pelo CAGED, medir taxa de ocupação hoteleira, entender de onde vêm os visitantes e quanto gastam. Significa ter uma base de indicadores que permita comparar um período com o anterior, um evento com outro, uma gestão com a seguinte.
Com esse conjunto de dados, a secretaria de turismo deixa de ser a que "organiza festa" e passa a ser a que "demonstra resultado econômico". Essa distinção não é cosmética — ela define o acesso a recursos, a credibilidade institucional e a capacidade de influenciar decisões estratégicas do município.
O setor que gera emprego para quem a indústria não absorve
Há uma dimensão social no turismo que costuma ser subestimada: ele é um dos setores com maior capacidade de absorção de mão de obra em municípios de pequeno e médio porte, incluindo trabalhadores com menor escolaridade formal, jovens em início de carreira e mulheres em setores como gastronomia, hospedagem e artesanato.
A estrutura de emprego no turismo é distribuída ao longo da cadeia: não é concentrada em uma única empresa ou polo industrial. Quando um município recebe visitantes, o impacto econômico se distribui por restaurantes, pousadas, comércios locais, produtores rurais, artesãos, guias, transportadores.
Isso não significa que turismo resolve todos os problemas de desenvolvimento econômico local. Significa que ele tem características específicas que o tornam relevante para municípios que não têm perfil industrial, mas têm patrimônio natural, cultural ou vocação para eventos e gastronomia.
O outro lado: o que o turismo mal gerido custa
Vale ser honesto sobre os limites e os riscos.
Turismo intensivo sem planejamento pode gerar pressão sobre infraestrutura, encarecer o custo de vida da população local e criar sazonalidade que fragiliza o mercado de trabalho — contratações em pico, demissões em vale. Destinos que apostam no turismo como única estratégia econômica ficam vulneráveis a crises externas, mudanças de rota ou sazonalidade climática.
O argumento não é que turismo substitui desenvolvimento econômico diversificado. É que turismo, quando gerido com dados, planejamento e governança, é um componente legítimo e mensurável de uma estratégia de desenvolvimento local — e não um acessório de comunicação institucional.
A diferença entre os dois está no instrumento: sem dados, sem série histórica e sem política pública clara, o turismo é promoção. Com esses elementos, é desenvolvimento.
O que isso exige do gestor municipal
A mudança começa com uma decisão conceitual: o turismo é tratado como setor econômico ou como vitrine?
Se a resposta for setor econômico, as implicações práticas são concretas. O município precisa de indicadores regulares — não apenas quando há evento. Precisa de um Observatório de Turismo ou de um processo equivalente de monitoramento. Precisa de um COMTUR que delibere sobre prioridades com base em dados, não apenas valide ações já decididas. E precisa de um Plano Diretor de Turismo que conecte o setor à estratégia econômica do município — e não apenas liste atrativos.
Nenhum desses instrumentos é novo. Todos existem em formato regulamentado e com metodologia disponível. O que muda é a intenção de uso: promoção ou planejamento.
Municípios que fazem essa transição não deixam de organizar eventos ou promover seus atrativos. Eles continuam fazendo isso — mas passam a saber quanto cada decisão custa e quanto gera. E isso, na gestão pública, faz toda a diferença.
Referências: WTTC/Oxford Economics — Pesquisa de Impacto Econômico (EIR), 2024; CIET/SETUR-SP — Matriz de Indicadores de Sustentabilidade do Turismo (RITS-SP), outubro de 2025.


