Hierarquização de atrativos turísticos: como saber quais priorizar
Nem todo atrativo tem o mesmo peso. A hierarquização é a metodologia que ajuda o município a saber quais atrativos priorizar em roteiros e investimentos. Este artigo explica como ela funciona, com os critérios e a lógica de pontuação.
Vinicius Rodrigues · 23 de junho de 2026 · 7 min de leitura

Hierarquização de atrativos turísticos: como saber quais priorizar
Todo município tem mais atrativos do que consegue estruturar e promover ao mesmo tempo. A pergunta inevitável da gestão é: por onde começar? Quais atrativos merecem investimento e entrada nos roteiros primeiro?
Responder isso no chute leva a desperdício de recurso. Existe um método para responder com critério: a hierarquização de atrativos turísticos.
O que é hierarquização
Hierarquizar atrativos é atribuir a cada um deles um valor relativo, que indica sua importância e seu potencial de aproveitamento turístico. O resultado é um ranking: dos atrativos que mais justificam prioridade aos que entram em etapas posteriores.
O Ministério do Turismo adota, em seus cadernos de roteirização, uma adaptação da metodologia desenvolvida pela Organização Mundial do Turismo e pelo Centro Interamericano de Capacitação Turística, o CICATUR. O objetivo é claro: oferecer aos gestores um instrumento objetivo para decidir a escolha e a priorização de atrativos, em vez de deixar essa decisão apenas à intuição.
Os quatro níveis de hierarquia
O ponto de partida é avaliar o potencial de atratividade de cada atrativo, classificando-o em um de quatro níveis.
Hierarquia 3, alto. Atrativo excepcional e de grande interesse, com significação para o mercado turístico internacional, capaz de, por si só, motivar importantes correntes de visitantes. É o atrativo que sozinho já justifica a viagem.
Hierarquia 2, médio. Atrativo com aspectos excepcionais no país, capaz de motivar visitantes nacionais ou estrangeiros em conjunto com outros atrativos próximos. Não traz o turista sozinho, mas pesa na decisão.
Hierarquia 1, baixo. Atrativo com algum aspecto expressivo, capaz de interessar visitantes que já chegaram à região por outras motivações, ou de motivar fluxos regionais e locais. Complementa a experiência.
Hierarquia 0, nenhum. Atrativo sem méritos suficientes para atrair por si, mas que integra o patrimônio turístico como complemento de outros de maior hierarquia. Pode motivar recreação local.
Essa classificação inicial já dá uma primeira leitura. Mas a metodologia vai além, refinando a avaliação com critérios adicionais.
Os sete critérios de avaliação
Para chegar a uma hierarquia precisa, a metodologia avalia cada atrativo segundo sete critérios, cada um pontuado de 0 a 3.
Potencial de atratividade. O quanto o atrativo desperta interesse, do nenhum ao alto.
Grau de uso atual. O volume de fluxo turístico que o atrativo já recebe hoje, do fluxo insignificante ao grande fluxo. Diferente do potencial, este critério mede a realidade atual.
Representatividade. A singularidade ou raridade do atrativo. Quanto mais único, mais pontua; quanto mais comum e parecido com outros, menos.
Apoio local e comunitário. O grau de interesse e engajamento da comunidade local com o desenvolvimento e a abertura do atrativo à visitação.
Estado de conservação da paisagem circundante. A qualidade do ambiente ao redor do atrativo, do péssimo ao ótimo estado de conservação.
Infraestrutura. A existência e o estado da infraestrutura disponível no atrativo, da inexistente à que está em ótimas condições.
Acesso. As vias de acesso ao atrativo e suas condições de uso, do inexistente ao ótimo.
O detalhe que muda o resultado: os pesos
Aqui está o ponto que torna a metodologia mais precisa, e que muitos ignoram: nem todos os critérios têm o mesmo peso.
Dois critérios são considerados mais significativos que os demais e recebem peso dobrado: o potencial de atratividade e a representatividade. Na prática, a pontuação obtida nesses dois itens é multiplicada por dois.
Por exemplo: um atrativo cuja representatividade seja avaliada como rara e singular recebe 3 pontos, que multiplicados por dois resultam em 6. O mesmo vale para o potencial de atratividade. Os outros cinco critérios mantêm o valor simples.
Essa ponderação não é detalhe técnico: ela reflete uma decisão metodológica importante. O que mais importa em um atrativo é o quanto ele atrai e o quanto ele é único. Infraestrutura e acesso podem ser melhorados com investimento; singularidade e potencial, não. Por isso pesam mais.
Como chegar ao ranking
Concluída a avaliação, somam-se os pontos de cada atrativo, já com os pesos aplicados. O resultado é o valor total de cada um, e a comparação desses totais produz o ranking.
A regra de leitura é direta: quanto maior a pontuação de um atrativo, maior sua importância e maior a prioridade de incluí-lo nos roteiros e nas ações de estruturação e promoção. Os atrativos de maior pontuação são os que demonstram melhor combinação de potencial, singularidade, uso e estrutura, e por isso devem vir primeiro.
Isso não significa abandonar os atrativos de menor hierarquia. Significa sequenciar: estruturar primeiro o que tem maior potencial de retorno e, à medida que esses se consolidam, incorporar os demais em etapas posteriores.
Uma ressalva honesta sobre o método
O próprio Ministério do Turismo reconhece um ponto importante: a hierarquização tem um grau de subjetividade. O valor atribuído a cada atrativo depende, em parte, da leitura de quem avalia, especialmente em critérios como potencial de atratividade e representatividade.
Isso não invalida o método, mas indica como usá-lo bem. A hierarquização fica mais confiável quando é feita com critérios claros e documentados, idealmente de forma participativa, envolvendo a equipe técnica e atores locais, e não por uma única pessoa isoladamente. A subjetividade se reduz quando mais olhares qualificados participam da avaliação.
Por que vale o esforço
Hierarquizar dá trabalho, mas resolve um dos problemas mais comuns da gestão do turismo: a dispersão. Sem hierarquização, o município tende a tratar todos os atrativos como igualmente prioritários, o que na prática significa não priorizar nada e diluir recursos.
Com a hierarquização, a gestão passa a ter uma base objetiva para concentrar esforços onde o retorno é maior, estruturar roteiros em torno dos atrativos mais fortes e justificar tecnicamente suas escolhas de investimento. É a diferença entre planejar com critério e reagir por impulso.
Referências: Ministério do Turismo, Caderno de Roteirização do Programa de Regionalização do Turismo, Anexo de metodologia de hierarquização de atrativos; adaptação da metodologia OMT/CICATUR.


